A história
que ninguém conta.
Perdi 250.000 € em dois anos. Todos os tostões que tinha poupado em quinze anos de consultoria. Desapareceram.
Tinha 45 anos. Num país estrangeiro. Sem uma rede de contactos que me pudesse valer. A começar do zero.
Isto é como me reconstruí, e o que aprendi sobre a única rede de segurança verdadeira. Ponho-o no site por uma razão: é a lição mais cara que tenho, e agora ensino fundadores a não a repetirem.
Vinte anos a construir.
Dez anos a construir para outros. Nokia, SAP, empresas da Fortune 500. A perceber o que faz as grandes organizações funcionar, e o que as parte.
Depois dez anos a construir a minha própria empresa. Consultoria, formação, palestras. Cinco livros. Mais de cinquenta organizações transformadas em três continentes. Sou docente na Porto Business School.
Por todas as métricas externas, era bem-sucedido. Mas, tarde na noite, a olhar para mais um projeto de transformação empresarial, sentia-me vazio. Estava sempre a ajudar outras empresas a escalar, a ver outros fundadores a correr os riscos enquanto eu jogava pelo seguro com contratos de consultoria.
Andava sempre a dizer “um dia construo a minha própria coisa.” Esse dia nunca chegava.
A queda.
Em 2020 fui convidado para a Arábia Saudita para trabalhar com o presidente executivo do maior banco digital do país. Do tipo de oportunidade a que não se diz que não. Depois veio a COVID, e vim-me embora.
Em outubro de 2023 voltei — desta vez com 250.000 € de poupanças e um plano para ganhar contratos de consultoria, a fazer o trabalho de transformação empresarial que fazia há quinze anos.
O país inteiro estava a ser construído de raiz. A principal indústria eram as startups. Ninguém queria consultores de transformação digital.
Tudo o que eu tinha planeado estava errado para aquele mercado, e descobri-o depois de estar totalmente comprometido. Vi as poupanças a desaparecer. Custos de instalação. Despesas de viver num país estrangeiro. Marketing que não resultou. Pivots que não deram a lado nenhum.
Contactei centenas de pessoas que tinha conhecido ao longo de uma carreira. Três ajudaram mesmo.
A escuridão.
Alguma coisa mudou naquela escuridão. Quando tudo foi retirado — reputação, dinheiro, contactos — sobrei apenas eu.
Depois, um dos fundadores a quem eu tinha dado mentoria num programa de aceleração saudita mostrou-me o Claude, e ensinou-me o que a IA conseguia mesmo fazer. A pessoa que eu tinha ajudado estava agora a ajudar-me a mim.
É nessa parte que penso mais vezes. Não na perda — no facto de a única coisa que me voltou ter vindo de alguém a quem eu tinha dado algo anos antes, sem esperar nada em troca.
O presente.
Sem dinheiro nenhum, voltei para Portugal, para casa dos meus pais, e retomei onde o fundador na Arábia Saudita tinha ficado — a construir com IA.
Tinha 45 anos e eram os meus pais a pagar-me o software. Não vou disfarçar isso. A vergonha era física.
Por baixo dela estava outra coisa, mais dura e mais útil. Aquele foi o último dinheiro que eu estava disposto a desperdiçar. Falhar deixou de ser uma opção. Deixou de ser permitido.
A construção.
Larguei as grandes empresas e virei-me para o empreendedorismo. GoSolopreneur e YourMachine — um método cada — e a FIKR Space, a infraestrutura por baixo de tudo. As três estão sob a QeVentures, o grupo que criei para as deter enquanto a Evolution4all encerra em 2026. Software construído com IA, metodologias afinadas com IA, tudo com IA.
Não por eu ser um programador genial. Porque aprendi a fazer a IA construir software de produção — e depois construí a metodologia para ensinar outras pessoas a fazerem o mesmo.
Do nada a um ecossistema inteiro — sozinho.